segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sobre Tramas e Tramóias



Comecei a perceber nos últimos momentos que era a hora de olhar para os rastros do caminho e fazer o exercício da reflexão, perceber tudo que já estava, que já é, o que tenho construido até aqui e assim poder dar encaminhamentos e finalizar alguns processos.


É necessário compreender que dentro da pesquisa etapas se finalizam, se tranformam em outras possibilidades de caminhos. Neste momento a criação se bifurca em dois processos que mesmo autônomos se complementam, fomando redes de troca. O exercício é tentar separar as funções, mesmo entendendo que os caminhos ainda se cruzam.


Comecei pesquisando o que me interessava dentro do trabalho á existente intitulado "embolação", a idéia era que fosse um estudo de caso, porém tudo foi se reconfigurando e ganhando outras possibilidades de existir. Escolhi então, com o auxilio de orientação a buscar dentro dessa proposta artistica uma questão que eu acreditava ainda necessitar de um processo de verticalização. Hoje alguns rastros ficam mais claros, lembro de escolher como objeto de investigação a "amarelinha", que em muito me interessava, mas eu não sabia ainda bem o por quê.


Era um momento simples dentro do trabalho, existiam muitos outros que a primeira vista pareciam mais interessantes para um aprofundamento, porém refletindo agora, consigo perceber que, talvez o que tenha chamado a atenção era a questão que se verificava com as crianças quando passavam pelo jogo. A amarelinha que ja era lugar comum, instituido com um fim ja conhecido e reconhecido por todos, que as vezes estimulava e outras vezes não. O que mobilizou a investigação foi a possibilidade de encontrar outras formas de complexificação do jogo, do espaço que poderia ser ressignificado, reinventar seus modos de existência na memória coletiva. Muitos corpos não se motivavam com a proposta do jeito que se apresentava.


Foi importante verificar e isso só consigue ser perceptível agora, o jogo cresceu, se desenvolveu, se complexificou, foi pra muitos lugares, sensações,construindo outros espaços e organizando um corpo preparado para estar, pronto para a vida, para tocar o mundo em outras versões, para estar na rua de um jeito nunca antes percebido.


Seguiu-se em frente, foram surgindo outras possibilidades, imagens que eram construídas durante a movimentação e investigação, surgiram animais, galinha, macaco, uma questão do corpo articulado, do pescoço que se move para caminhada poder acontecer, algo conectado, será que ela andaria se segurassem o seu pescoço? Talvez! Será que, se a cabeça não se organizasse com aquele movimento a galinha conseguiria mover outras partes? Questões que surgem no caminho. Seguindo além, vieram histórias, as pessoas contam suas histórias de infãncia, lembranças, relação com os modos de como brincavam, tudo foi sendo registrado pelos ouvindos, em cursos para professores, na secretaria de educação, em paranaguá, pessoas de diferentes idades que começavam a se lembrar de suas memórias, o que muito movia a criação, então segui em busca da construção que poderia ser elaborada a partir dessas memórias, que movimentos essas falas teriam, que corpo ocupariam e uma pergunta sempre batia no corpo, "e a linha?".


A linha da amarelinha começou a chamar atenção, como era focada a questão da linha dentro da pesquisa, o que ela significava, como alterava o espaço? Comecei a desconstruir o espaço tradicional da amarelinha, e o que ficava de tuda essa relação espacial tradicional, após todas as experimentações era a linha que ainda me movia, então achei que o trabalho tinha essa relação que se dava na direção da e com a linha. Linha da vida, dos desenhos no espaço, do traço da criança, do contorno e como a linha se relacionava com tudo no trabalho.


Comecei a acreditar que o nome do trabalho tinha que ter relação com a linha, busquei coisas como "AMAR é Linha" mas em nada se relacionava com o tipo de pensamento que se ordenava dentro do trabalho, foi então que surgiu a palavra "trama" tentei comê-la antropofagicamente e no dicionário construia sentidos, possuia forte relação com os fios do tecido que constróem uma rede, fios que se cruzam, tecido, textura, astúcia, enredo, conspiração, maquinação e tramóia, a relação com as histórias, linha do tempo, infância, fio da urdidura, que formam tecidos, teias, trama ou tramóia e as coisas começaram a fazer mais sentido, as pontas começaram a se encontrar, pontas dos fios se conectando e dando sentidos as idéias.


Acredito que a pesquisa está nessa lugar de reconfiguração cênica, na organização de uma dramaturgia que ja existe, mas que se lapida com cuidado. Estou TRAMANDO coisas!



Clayton Leme - Pesquisador 4 ano - Dança

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