segunda-feira, 22 de junho de 2009

Espelho espelho meu...




Depois de um tempo de caminhada a gente vai olhando para o espelho e percebendo algumas rugas que começam a surgir, lugares, marcas, estigmas e rastros que ficam,histórias que constróem um lugar que é seu, que se organiza a partir das suas escolhas. Olhar para o meu trabalho, perceber como me relaciono com ele e tentar descobrir as suas lógicas, lugares esses que se articulam entre "estruturas" flexíveis que surgem criando outras possibilidades de organização e entendimento no tempo/espaço.

Vejo nessa trajetória uma organização artistica que não fica no mero reconhecimento de um jeito de tratar a criança e a produção infantil, mas um lugar de contrução de um discurso que é político. Falar de discurso político em dança pode parecer redundante a princípio, mas falo de um outro lugar que percebo enquanto característica própria no meu modo de operar nas criações. É claro que entendo que todo trabalho de dança já é por si só um posicionamento ou um discurso político, porém como ele se configura nos meus trabalhos acredito ser de modo diferenciado,algo que se relaciona com essas marcas e rastros construidos ao longo do tempo, ele se dá na relação desse corpo com o contexto, e isso, talvez, não seja perceptível acredito. Me parece que as pessoas conseguem enxergar e avaliar somente o corpo que se configura a sua frente, esquecendo de perceber as relações que esse corpo constrói em tempo real,o gera alterações constantemente, frequentemente alterado pelo contexto. Tenho muito claro que meus trabalhos não tem se organizado somente nesse lugar, minhas discussões se dão nessa relação do corpo em determinado contexto. Se eu desloco o corpo desse contexto , talvez o discurso perca sua legitimidade e fique somente um corpo ou ação banal.

Não sei se sou claro, acredito que todas essas coisas que escrevo servem mais para eu poder me encontrar no meio do meu discurso. Vejo no meu processo de investigação, não somente uma experiência estética, mas um lugar de complexificação do discurso, no sentido de construir críticamente uma ação que transcende o lugar do entretenimento, e é nesse lugar que ele se coloca como um trabalho que não se faz tão estruturado quanto parece, ele se transforma dentro desse recorte. Outro incômodo que me traz é essa idéia de estrutura, como as pessoas entendem essa palavra? Algo que fecha ou que também se transforma com o tempo? Compreendendo todas as questões que envolvem um trabalho de Dança é preciso olhar para essa palavra como algo que não é fechado, como se algo que possui uma estrutra estivesse condenado a não ter possibilidade de transformação e atualização no mundo. Vejo esse lugar da estrutura como um lugar que levanta paredes sim, mas peredes de água, lugares de flexibilidade que delimitam um lugar de investigação,que propõe um recorte, mas que não é estanque. Questiono meu papel de artista, de proponente de uma lógica que não tem se configurado adequadamente talvez e me faço outra pergunta:O que é adequado?


Precisamos aprender a olhar as escolhas dos outros entender que "O CONTORNO, MOLDURA DE UM QUADRO DE OURO DURO E DE COR AMARELADA FALSA..."nem sempre da conta de "UM QUADRO DE UM CAMPO DE TRIGO COM O VENTO BATENDO...." Falo dessas coisas aqui porque passo por um momento de crise sobre os modos de olhar e perceber meu próprio trabalho, que lugar ele ocupa no mundo e como se relaciona com o contexto ao qual está inserido, falo de encontrar, um lugar fértil para seu desenvolvimento, para o desdobramento de suas marcas e modos de se organizar. "NINGUÉM ABRE ESPAÇO, AS PESSOA FALAM DEMAIS, FAZEM DEMAIS PARA NÃO DAR ESPAÇO PARA O OUTRO....."
"PORQUE QUANDO ABRIMOS VEMOS QUE O OUTRO AS VEZES SABE DIFERENTE, MAS SABE TANTO QUANTO A GENTE, O OUTRO FAZ DIFERENTE, MAS FAZ TAMBÉM MUITO LEGAL, O COLABORATIVO MOSTRA QUE ASSINATURA SE REPARTE, E AS DISTÂNCIAS ESTÃO PRÓXIMAS EM NÍVEIS DIFERENTES..." Falo de um lugar para se perceber, espero que esses lugares realmente existam, lugares de possibilidades, e se não existirem que possamos criá-los nos acotovelamentos, para que o outro também perceba que pode ceder...ceder e empurrar, talvez mais empurrar neste momento.

Clayton Leme

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Clay, quando vejo o seus estudos e leio seus textos, tenho certeza de que vc tem seus pensamentos muito claros e bem estruturados.
    Eu entendo essa palavra estrutura, como um móvel, por exemplo, cheio de gavetas. Fica difícil empilhá-las sem a cômoda, o acesso as coisas que nela estão, torna-se trabalhoso e é justamente a estrutura que facilita isso. O que a gente põe ou tira disso fica a critério nosso. Se vou me utilizar dessa estrutura para “socar” coisas e deixá-las lá, estanques, também posso. Mas acho que a idéia é de estruturar, pra movimentar, pra melhorar o acesso.

    Bom poder participar de algumas coisas dessa construção!
    Abraço!!
    Gus

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  3. Parábens,ótima análise,se as pessoas pudessem ouvir não só com os ouvidos e sim com a alma entenderiam a dor que as algumas pessoas sentem diante de uma sociedade depravável,onde não se pode ter uma opinião bem formada, porque há deversidades na mídia sobre um mesmo tema, que não há aprofundamento, apenas informações que buscam afetar diretamente o emocional das pessoas, e quando atinge uma massa, a notícia é substituida por uma tragédia.É difícil julgar um sim ou um não, se há muita informação omitida,não há como defender uma tese só pelas novidades da "comunicação industrial".
    Rafaela!!!!

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