segunda-feira, 27 de abril de 2009

Transformações = mudanças?


Desde que comecei a dançar, sempre na mesma área, quase sempre no mesmo lugar, venho passando por momentos diferentes quanto a relação com esse dançar e ainda com o instruir.
A responsabilidade prematura é capaz de nos tolher de certos prazeres e, às vezes, apenas uma nova restrição pode nos devolver o que perdemos.
A necessidade fez com que, aos 15 anos, além de dançar, eu comandasse os ensaios do grupo e fizesse a manutenção do repertório. Isso acabou despertando a vontade de se aprofundar e coreografar, mas também me podou um pouco como dançarino, pois já não me relacionava da mesma forma com o dançar, acreditando que a responsabilidade do comando se sobrepunha ao prazer de interprete. Assim, no palco, passei a ser, mesmo em papeis de destaque, coadjuvante, vitimado pela soberba. Como uma criança que sai do seu lugar na coreografia para corrigir o colega, ausentei-me do papel para cuidar dos outros. O problema é que eu não enxergava essa ausência e também não me permiti escolher um lugar, pois acreditava poder desempenhar os dois papeis com competência.
Não era competência o que faltava e sim preparo. Apenas a vivência foi modificando esses lugares distintos.
Quando um leonino se descobre líder (instrutor) ele pode perder os parâmetros e querer ensinar mesmo até “o padre a rezar a missa”! A dedicação e o empenho viram armas para uma luta pela posse da verdade. Se eu me empenho e estudo eu sei melhor do que os outros, não é!? Talvez...
Ao menos essa lição mal aprendida serviu para o descontentamento com o pouco, motivando a busca por algo melhor.
A chance de viajar para estudar essa cultura de perto encerrou (ao menos, temporariamente) com a carreira de líder devolvendo ao dançarino a possibilidade de destaque. Durante alguns meses, não adiantava nem abrir a boca, pois nem que quisesse comandar, as pessoas não entenderiam o que eu dizia. Tudo o que me foi ofertado então era ouvir, engolir, processar e executar. Dizem que “uns nasceram pra mandar e outros pra obedecer” mas é preciso ter competência pra estar um dia de um lado, um dia de outro...
Finalmente, após um período de reaprendizado, quando essa liderança começa a aflorar, é hora de apagar o instrutor novamente e zerar os ponteiros, para dar início a carreira profissional de bailarino em uma companhia estatal. Uma realização enorme, mas ao mesmo tempo, a certeza de um rompimento com o comando.
Observar e conviver com pessoas com as mesmas características e interesses, fez com que essas necessidades se modificassem e as vontades se aplicavam em momentos diferentes. Nos ensaios, a concentração e disciplina possibilitavam enxergar coisas que passavam desapercebidas e assim, algumas vezes, até me permitia alguns apontamentos.
Em cena, dedicava-me exclusivamente a interpretação e assim era reconhecido como dançarino. Ainda não consegui descobrir o que me da mais prazer, mas aprendi a curtir o que me é dado fazer.
Talvez a diferença básica entre mudar e transformar, a que me parece, seja que a primeira se da diretamente, de uma posição a outra já a segunda, parece estar ligada a etapas e acontece gradativamente.



Luis Gustavo Guarize

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